Curioso esse negócio do fio de cabelo branco. Durante muito tempo ouvi as pessoas dizerem coisas terríveis quando da chegada dos fios de cabelo branco, significando a chegada implacável da velhice, uma lembrança dolorida de que a juventude está se esvaindo, a maturidade chegando a largos e brancos passos e que aquele jovem de 15 anos que voce foi um dia, já nao existe mais, pelo menos fisicamente. De alguma maneira, sempre esperei serenamente pela chegada dos meus cabelos brancos e sempre os ví com certa simpatia, talvez por achar que ficam bem num homem, sem que isso possa significar decrepitude do corpo. Sempre acreditei mais na decrepitude da alma, pois quando o cara passa a se sentir um velho somente por ter visto um fio de cabelo branco, acho que esse cidadão decretou a sua própria falência dos orgãos. Meus cabelos brancos chegaram serenamente, meio mascarados e disfarçados entre os cabelos loiros. No começo sempre fiquei na dúvida se eram realmente cabelos brancos ou se eram apenas fios claros, mas com o passar do tempo, a resposta confirmou-se com o aumento do numero deles, e o aparecimento de outros fios brancos na barba e no peito. Nada mudou na minha vida. Não tentei saltar pela janela do apartamento nem passei a analisar seriamente a possibilidade de uso das tinturas modernas, estas que ao invés de ajudar algumas pessoas, penso que transformam a preocupação do cara, num sofrimento inenarrável. Quando eu trabalhava em Viracopos, tinha um cidadão lá que tinha o apelido de Acaju e eu passei semanas sem entender o motivo. Certa manhã de segunda-feira, o sol brilhava la fora; estávamos todos socados dentro de uma sala fedida do mezanino trabalhando quando o Acaju entrou, reluzindo na cabeleira seu mais novo retoque da tintura, algo assim tipo “marron-claro-esverdeado”, cor oficialmente conhecida como Acaju e todos os socados trabalhadores alí explodiram na gargalhada. O coitado baixou a cabeça, deu um riso amarelo e zarpou pro saguão com seu orgulho em riste. Acho que ele pensava assim : “tou podendo!”....Enfim né? Meus cabelinhos brancos me prepararam um golpe mortal: apesar de minha “simpatia & serenidade”que me referí linhas acima, eles resolveram me decretar meu corpo como território conquistado, e sua bandeira foi hasteada no ponto em que eu menos imaginava que fosse possível na minha tenra idade de 35 anos - na pestana! Eis que um dia, páro e presto atenção na minha face refletida no espelho.... tem alguma coisa diferente.... será uma ruga nova de fumante?....será que a olheira habitual está mais saliente?... ao prestar uma atenção delicada, noto a bandeira estendida na pestana esquerda através de um fio branco, grosso, saliente e convencido de sí prórpio gritando pra toda humanidade que ele havia chegado e dalí não sairia mais. Com um riso sem graça, aceitei minha sina e dalí em diante passamos a ser amigos. Confesso até que toda vez que vou ao barbeiro, a tesoura sempre dá umas aparadas na pestana, e fico com certo dó ao ver meu pelinho branco de estimação sendo ligeiramente amputado, mas assim como a fênix que ressurge das cinzas, dalí uma semana meu amigo de espelho estará de volta. Curiosamente essa reflexão sobre si próprio no raiar do amadurecimento não me altera em nada.... pelo menos por enquanto. Quando a genética germânica resolver se manifestar e os cabelos começarem a cair rumo à calvície, aí sim eu creio que teria uma briga de gigantes. Nem que seja pra aplicar babosa na veia.... Cabelos brancos sim, mas perder a dignidade prateada capilar, jamais.

Trilha sonora do momento: Withney Houston – Try it on my Own.




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